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A Importância dos Festivais

A Importância dos Festivais

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Lembro da primeira aventura de sair de meu país para viajar com a intenção de frequentar um Festival de Musica, isto foi no ano de 1.970 e o Festival era em Santiago de Compostela, na Espanha. Já estudava violão há algum tempo e o universo que frequentava era da cidade de São Paulo e seu professor maior era Isaias Sávio. Era ele que praticamente comandava todo movimento violoní­stico que acontecia, desde os concursos, concertos de seus alunos e era a escola que determinava o aprendizado do chamado “violão erudito”.

Foi ele que trouxe a escola europeia com sua técnica, repertório e o processo pedagógico que frutificou em discípulos que seguiram seu aprendizado, tendo como exemplo maior Antonio Carlos Barbosa Lima, hoje sendo uma das grandes figuras do violão internacional. Foi com este violonista, que tive aulas durante um ano, que me estimulou na aventura de ir a Santiago de Compostela, mas tinha outro atrativo maior, este Festival possuí­a a cadeira de violão e sua posse era de Andrés Segovia.

É claro que eu já sabia antecipadamente que o sucessor era seu aluno José Thomaz, mas estar em Compostela e saborear o requinte que o nome Segóvia emanava já era o suficiente para ir a busca de subsídios para esta viajem. Tive um patrocinador, João Teixeira Pinto, um parente médico que pagou minha viajem e acreditou que eu faria um bom aproveitamento desta que, realmente, foi fundamental para meu desenvolvimento no instrumento e visão musical. E lá vou eu, saindo do aconchego de minha cidade para um país que fica há 12 horas de viajem de avião, falando uma lí­ngua semelhante a minha, mas difícil de entender, mas aos tropeções fui inventando um portunhol que dava para trocar algumas informações.

O primeiro movimento, estando na cidade de Madri, foi ter que ir a oficina de José Ramirez, o construtor do violão mais ambicionado naquele momento, fui buscar um instrumento que alguém de São Paulo havia encomendado, foi uma experiência e tanto estar ali e conversar com o luthier dos violões que Segóvia usava. Fiquei um dia em Madri e em seguida fiz um vôo para Compostela. Tudo isto em minha cabeça era um pouco caótico, mas fui seguindo todos os detalhes de estar no alojamento do Festival e a noite estar para a abertura, que foi na Prefeitura de Santiago de Compostela, juntamente com o Sr. prefeito e autoridades.

Mas o mais importante foi vivenciar o “Hostal de los Reyes Católicos”, um magnífico prédio erigido no século XVI, todo construído com pedras, tendo um vão em seu interior e ali um magnífico jardim e fontes que o ornamentavam, nos passando a visão mítica das “mil e uma noites”. Ladeando este jardim estão as salas que são ministradas as aulas, muito amplas, com suas paredes em pedras, sendo um ambiente ideal para a sonoridade do violão, com uma reverberação adequada que traz conforto ao violonista, ampliando sua sonoridade e retornando, realizando uma equalização perfeita. Foi nesta sala que tive as impressões que iriam acrescentar um universo novo do violão a minha pequena vivência musical.

Fui apresentado ao professor José Thomaz, eu e mais 40 alunos que participamos de suas aulas, todos tocamos o primeiro dia para sua avaliação, mas a grande surpresa foi conhecer colegas como Ishiro Suziki (Japão), Gabriel Estarellas Espanha), Balthazar Benitez (Uruguai), Evangelos Buduniz (Grécia) e outros de igual estatura artística, que vieram acrescentar e modificar minha visão sobre meu instrumento, ampliando minhas perspectivas de trabalho e me colocando como aluno que teria um longo caminho pela frente para crescer e desenvolver a profissão que tinha escolhido, a de violonista.

As obras que foram solicitadas para frequentar o Festival foram: Peças Caracterí­sticas de Federico Moreno Torroba e a Suí­te Inglesa de John Duarte e levei trabalhadas algumas outras obras que fui apresentando durante as aulas em que pude tocar. Devo ter tocado para Thomaz 4 vezes, mas o mais importante foi ouvir os colegas que trouxeram obras como a Chaconne de J.S.Bach, Sonatas de M.Ponce, peças de M.Castelnuovo-Tedesco, de Leo Brouwer (que ainda me era desconhecido), enfim, todo repertório importante existente naquele momento, realizado com perfeição e em instrumentos com sonoridades que jamais tinha sonhado.

Mas o que mais me chamou a atenção foi o violonista uruguaio Balthazar Benitez, que tinha uma maneira de tocar diferenciada, mas não por seu virtuosismo, mas sua forma de segurar o instrumento, sua técnica da mão esquerda e direita, a sonoridade mais clara e limpa, enfim, um conjunto de detalhes que o diferenciava dos colegas, e seu perfeito trêmulo que era seu cartão de visitas. Nos tornamos amigos e soube que seu professor no Uruguai era Abel Carlevaro, que além de excelente didata era compositor. Conheci algumas de suas composições que Benitez tocava: Campo, da série “Prelúdios Americanos” e alguns estudos de seu livro “Técnica da Mão Esquerda”.

As aulas transcorreram sempre com algumas surpresas quanto ao repertório e a performance dos colegas. Teve no final do Festival um concurso na classe de violão, que eu também participei, mas ficou como vencedor Gabriel Estarellas, e em segundo lugar Balthazar Benitez. O premio foi o almejado violão Ramirez. Concluindo o curso fui para Madri onde fiquei alguns dias e fui até as lojas de musica para comprar algum material e em seguida fui até Paris, que fiquei uma semana, onde conheci outros dois grandes violonistas: Alberto Ponce e Beethoven Davesac, mas a minha meta era ir até a loja da editora Max Eschig e Henry Lemoyne, que pude comprar um bom material para minha pesquisa sobre o repertório violoní­stico. Voltei outra vez para Madri, onde estava hospedado com um dos colegas de Compostela, o mexicano Pedro Sérgio Salcedo e depois de alguns dias voltei para o Brasil. Uma das resultantes importantes desta minha primeira aventura, foi a troca de correspondência que mantive com alguns colegas que ficaram mais próximos, foram muitos anos que troquei informações e o andamento do violão em várias partes do mundo, e vários deles foram organizadores de Festivais ou se tornaram concertistas, professores e compositores, que tive a oportunidade de seguir seus trabalhos por um longo período.

Por uma feliz coincidência, logo que cheguei ao Brasil soube do Seminário Internacional de Violão Palestrina, que era realizado em Porto Alegre e que Abel Carlevaro estaria lá dando aulas. Fui saber como fazia para se inscrever neste evento e assim que aconteceu, foi no mês de julho de 1.971, estava eu lá neste outro evento violonístico. Assim vim a conhecer este grande mestre que veio modificar e organizar minha maneira de dar aula e meu enfoque da técnica do instrumento. É claro que em meu primeiro contato com Carlevaro e tendo assistido suas aulas em master-classes, não pude nesta ocasião compreender seu sistema, mas tive outra surpresa, ele me convidou para ir ao Uruguai me dando uma bolsa de estudos, isto é, me daria aulas de graça, e no outro ano estava em Montevidéu tomando suas aulas e compreendendo melhor seu sistema, pois tinha todo o dia para estudar todos os detalhes que ele expunha em suas aulas. O que facilitou muito a compreensão da “Escola Carlevariana” outra grande vantangem era eu estar hospedado na casa de Eduardo Fernandez, que me tirava todas dúvidas que ocasionalmente aconteciam; Fernandez foi aluno de Carlevaro durante muitos anos.

Em outro Seminário Palestrina que participei, fiquei conhecendo Guido Santorsola, que foi personagem importante em minha formação, aprendi com ele o valor exato das notas, limpeza na condução de todo movimento realizado, o fraseado com um acabamento perfeito, conduzir uma obra conforme o sentido dado por seu autor. Estudei com ele, também, harmonia, contraponto e análise musical. Com Santorsola tive uma visão do compositor não violonista, do maestro que exige uma ética na interpretação de uma obra, que não adianta apenas imitar um grande intérprete, mas você tem que analisar o que foi escrito e desenvolver sua própria visão do que está sendo tocado, colocar todos os componentes dentro da linguagem do violão e detalhar minuciosamente tudo o que foi escrito, dando ao ouvinte algo acabado e compreendido.

Estes dois maestros, Carlevaro e Santorsola, vieram no momento certo de minha carreira de violonista, cada um acrescentou componentes que foram enriquecer minha formação, que com o tempo amadureci e criei minha maneira particular de me expressar musicalmente, violoní­stica e pedagogicamente. Mas foi o casuísmo de te-los conhecido nos Festivais que frequentei que me foi oferecida esta rara oportunidade. Como aluno freqüentei estes dois Festivais, o de Compostela e o Seminário Palestrina e em seguida passei a ser convidado a outros como professor, como o de Londrina (PR), Goiânia (GO), Montenegro, Vale Veneto e Palestrina (RS), Brasília, Vitória (ES), Fortaleza (CE) Cochabamba (Bolívia), Santo Tirso e Aveiro (Portugal) e Koblenz (Alemanha).

Posso acrescentar que um encontro de músicos, incluindo professores e alunos, por um determinado perí­odo, pode ser muito útil para reciclar conceitos, conhecer novas formas de tocar e ensinar, ampliar a visão quanto as reais possibilidades de fazer musica, a diversidade quanto a prática centrada na originalidade de cada intérprete ou professor, ampliação do círculo de amizades com pessoas afins com seu instrumento, a possibilidade de novo direcionamento na maneira de estudar, conhecimento de um repertório novo, enfim, um complemento na formação do estudante. Além de reciclar os conhecimentos já adquiridos, os fortalecendo com uma visão nova, mostrando novos ângulos a serem explorados, é uma oxigenação de conhecimentos que irá aumentar as possibilidades de resoluções que não foram formuladas anteriormente, enriquecendo sobremaneira o sentimento prático e filosófico da profissão do músico.

A profissionalização do artista requer esta constante reciclagem, a partir de um novo trabalho a realizar seja como intérprete, compositor, professor, arranjador ou qualquer uma das muitas possibilidades do ato de fazer musico, são atos contínuos de criatividade e uma nova ideia sempre dará a possibilidade de se chegar mais longe, de ampliar nosso ato artístico, de abrir novas portas em nossa mente e vislumbrarmos caminhos mais amplos. A multiplicação dos Festivais e Seminários que acontecem em todo mundo de hoje, é um sinal que desejamos estar participando em conjunto desta evolução. Não existe hoje o artista isolado da sociedade, ele tem que participar e compartilhar com seu trabalho de todo processo de aprimoramento da capacidade de pensar e selecionar o que convém a sua inteligência, esse poder seletivo nos fará crescer, desenvolvendo nosso espírito criativo em todas as direções assim nos tornando mais sensíveis em nosso relacionamento humano.

1 Comment

  1. Essa experiência é muito boa para nós alunos, nos mostra como é o caminho para ser um bom músico.

    Gostei do texto,

    obrigado

    Ronicley N. Ribeiro

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