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Valorização da Música como Identidade Cultural

Valorização da Música como Identidade Cultural

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Minha função como músico é ser professor de violão, função esta que exerço desde meus 14 anos, quando tinha somente três anos do aprendizado no instrumento.

Mas, o que mais me fascinava era como um aluno de aula para aula (sempre as aulas foram semanais) desenvolvia sua técnica e assim podia executar obras, que gradativamente iam se tornado mais complexas, tanto por sua técnica como a linguagem da própria obra.

Outro fator cativante era que cada aluno tinha seu ritmo de evolução, todos tocavam, mas qual seria o fator que influía neste desenvolvimento particularizado?

Seria o talento inato, o empenho em seu trabalho no instrumento, minha presença que os estimulava, ou seria o repertório que poderia ser moldado a cada personalidade, assim se encaixando em seu universo, sendo absorvido e resolvido mais rapidamente?

Acontece que tinha outro fator, toda vez que organizava um recital entre eles isso os estimulava, e as obras que já tinham trabalhado em poucos dias estavam prontas tecnicamente e fluíam com mais entusiasmo e ousadia, apresentando uma maior fluência e determinação.

Creio que o professor é mais um observador e estimulador; observar para acrescentar somente o necessário ao seu desenvolvimento, para que haja uma assimilação dentro dos limites de sua compreensão atual e estimular, buscar dentro de suas possibilidades o que ele faz de melhor e dentro de sua organização mecânica, compreensão do texto musical e seu estado emocional, desenvolver de maneira contí­nua sua potencialidade em seu fazer musical.

Mas, eu queria saber um pouco mais sobre este processo, esta mágica de tocar, que sabia que somente os princípios acadêmicos pré-estabelecidos não eram suficientes. Foi conhecendo o pensamento estruturalista de Jean Piaget sobre a evolução de uma criança que me veio uma resposta mais consistente que todos os livros sobre técnica violoní­stica tinham me apresentado.

As memórias que trabalham para que toda organização funcione harmoniosamente estavam nas primeiras páginas de seu trabalho A psicologia da inteligência, em que descreve todas as etapas do desenvolvimento de uma criança, e eu podia adaptá-las ao desenvolvimento de um aluno de violão.

Memória muscular: é aquela relacionada ao contato direto com o instrumento, que podemos chamar de técnica, que é a postura das mãos e do desenvolvimento motor, é o desenvolvimento do mecanismo necessário para a realização de um peça musical.

Memória visual: é aquela que abrange tanto a leitura do texto musical como o visual do braço do instrumento, relacionado com a mão esquerda e também o dedilhado da mão direita, assim realizando infinitas combinações.

Memória auditiva: É o resultado da memória muscular, guiando no sentido da resolução e precisão dos gestos para dar um sentido estético adequado a obra proposta.

Piaget faz uma colocação lapidar sobre o conceito de inteligência. Sua colocação é que inteligência não é algo inato, mas o indivíduo é tão mais inteligente quando mais ele sabe sobre um determinado assunto, portanto, um aluno é mais inteligente musicalmente quanto é sua bagagem musical, ou melhor, quanto mais o aluno desenvolve sua capacidade motora no instrumento mais inteligente neste sentido ele o é.

Piaget dá um sentido mais preciso sobre o termo “afetividade”. Quanto mais você conhece um determinado assunto mais interesse vai se desenvolvendo sobre este assunto, isto transformado na matéria música: “Quanto mais você toca e conhece sobre musica, mais você quer se aprofundar sobre seu instrumento e as matérias que dão maior compreensão ao seu objeto de estudo”.

Pelo longo caminho que percorri na musica, lecionando aos variados ní­veis de alunos, desde aqueles com dificuldades para executar a mais simples peça em seu violão até formar concertistas que hoje atuam no cenário nacional e internacional, percebi que, de qualquer forma, a musica é um elemento de encontro e desenvolvimento do indiví­duo, conhecer sua linguagem e os princípios que regem sua organização pode dar um maior equilí­brio em sua psique e coordenação motora.

Não há a necessidade de ter dons especiais para tocar um instrumento, mas ter a oportunidade de iniciar e desenvolver sua potencialidade musical, não importando se será um amador, professor ou concertista.

O simples fato de saber identificar qualitativamente a audição de uma peça será o resultado de ter entrado em contato em algum momento com os princípios que regem esta arte, e isto colocado em âmbito nacional fará que compreendamos melhor a música que faz parte de nossa linguagem sonora, e teremos maior reflexão sobre nossa identidade cultural.

Vihuela, Viola

O primeiro instrumento musical que chegou ao Brasil, trazido pelos portugueses, instrumento este que tinha a função de harmonizar melodias simples, as quais os jesuí­tas utilizavam para catequizar os índios, foi a vihuela.

Este instrumento tinha como encordatura: a primeira simples e as demais cinco duplas. Tinha 10 casas e se assemelhava em possibilidades sonoras ao nosso violão atual; nele se executavam acordes, linhas melódicas e também se praticava polifonia.

Este instrumento era utilizado na Espanha e Portugal por compositores que enriqueceram seu repertório com obras que o eternizaram, obras estas com elaborado labor, que nos lembram os madrigalistas. Luiz de Narvaes, Luis de Milan e Valderrabano foram alguns nomes desta estirpe de vihuelistas que tiveram seu auge durante o século XVI.

Este instrumento tinha sua feitura muito elaborada, os luthiers utilizavam as madeiras mais nobres para sua construção, como o pinho europeu para o tampo, sua escala era de ébano e a lateral e fundo de atchero. Suas cordas eram de tripa e seu custo era bastante alto, enfim, era um instrumento utilizado nas cortes e somente nobres e as pessoas ligadas a essa casta social podiam adquiri-lo.

Ao ser transportado para o Brasil ele passou a ter outras características de construção e sua aclimatação deu origem a vários instrumentos derivados deste primeiro exemplar. Temos a viola de cocho, a mais rude cópia, muito utilizada no Brasil central, construída pelo caboclo com madeiras típicas da região.

Mas o instrumento que mais se assemelhou a esta primeira vihuela, foi a nossa chamada viola caipira, que construída de forma mais simples e substituindo a primeira corda da vihuela por cordas duplas e diminuindo seu número de cordas para cinco, se tornou nacionalmente conhecida a adotada para as mais diversas manifestações musicais, seja como instrumento acompanhante de cantores, e em especial as duplas, chamadas de “duplas caipiras” e em todas manifestações folclóricas.

Sua sonoridade se assemelha ao cravo, e as possibilidades de construção de melodias e harmonias são infinitas. A viola se tornou um instrumento tipicamente brasileiro, ele cria uma unidade na mais pura manifestação das raízes de nossa música, que é um misto da europeia, negra e indí­gena.

Esta viola não tem uma única afinação, mas em cada região ela tem sua característica, que posso dar algumas delas: rio abaixo, rio acima, cebola, cebolinha, cebolão e mais quantidade. Isto demonstra a criatividade do povo mais simples, que com seu artesanato, sua criatividade e sua necessidade de se manifestar musicalmente amplia, diminui, simplifica e torna seu instrumento adaptado ao seu fazer musical.

Esta forma de manifestação artística é de âmbito nacional, criando uma unidade, dando forma a cada indivíduo, a cada região e mantendo viva a pureza de sua maneira musical. Nos últimos anos a viola vem se sofisticando e compositores eruditos, como Ascendino Theodoro Nogueira criou uma obra significativa para ela, como o Concertino para viola e orquestra, gravada por Carlos Barbosa Lima e mais uma série de prelúdios.

Este mesmo compositor transcreveu para viola a famosa Chaconne de J.S. Bach, obra original para violino e foi gravada por Geraldo Ribeiro. Seu reconhecimento foi tanto que hoje ela está incluí­da no curso de música da USP de Ribeirão Preto, sendo seu professor Ivan Villela, virtuose da viola e criador da Orquestra Filarmônica de Violeiros de Campinas, com todos os naipes como uma orquestra tradicional.

Se formos colocar um instrumento como Unidade Cultural Brasileira, podemos colocar nossa viola caipira, que é um suporte para quase a totalidade de nossa musica regional. Posso citar alguns nomes importantes que valorizam este instrumento como instrumento solista: Renato Teixeira, Paulo Freire, Fernando Deghi, Fernando Lima e mais uma quantidade de músicos que vão se formando no rastro destes músicos excepcionais.

1 Comment

  1. Olá amigos!!
    Excelente essa aula de hoje!!
    Realmente acredito que o grande desafio deve ser coordenar todas as funções juntas e
    obtermos a deliciosa sonoridade que o violão propicia. Já ouvi pessoas que disseram ter
    aprendido tocar um instumento, mas, são incapazes de cantar simultâneamente. Creio que
    tudo se deve à bons professores e muita persistência, para superar as dificuldades e vencer.

    Grato;

    Paulo R.

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